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Atobá - da Bahia ao Rio de Janeiro

O baiano Roberto “Atobá” conta as aventuras de sua viagem da Bahia até o Rio de Janeiro, como sempre boa parte por estradinhas de terra pouco conhecidas.

Todo apreciador de belas paisagens sabe que não é só a cidade que é maravilhosa, o estado do RJ também apresenta uma beleza ímpar, mesmo com regiões bastante castigadas pelas chuvas, e pelos maus políticos, nos últimos anos.

Sabedor disso, e com viagem marcada em direção ao Rio Grande do Sul mas para ser feita em duas etapas, resolvi buscar também as belezas do interior do ES, sendo assim, trajeto pronto: Bahia/Rio de janeiro, via serras capixabas e fluminenses.

A saída atrasou um pouco: 15 horas não é hora de começar aventura, mas já que foi inevitável, resolvi tocar via asfalto até a cidade de Nanuque (MG), limite de três estados: MG, BA e ES, onde fui pego por uma chuva que parecia ser o fim do mundo. Aliás, sensação de fim de mundo mesmo foi o fato de eu ter ficado, junto com a moto, dentro de um banheiro de posto de gasolina por ser o único lugar quase seco das redondezas.

No 2º dia, entro no ES ainda por asfalto, e a primeira cidade que encontrei tinha o sugestivo nome de Montanha. Confesso que não achei na paisagem motivo para esse nome. Só encontrei uma única pequena elevação no meio das pradarias típicas da região, mas com toda certeza, esse nome é um bom agouro do que seria toda viagem. Lavei, lubrifiquei a corrente e continuei em direção à Nova Venécia, Colatina e daí em direção à europeia Santa Teresa, onde uma estrada estreita e sinuosa me apresentou a paisagem que teria pela frente.

Mangueiras carregadas na beira da estrada garantiram meu almoço: fruta do pé e descanso até chegar à cidade e pegar uma estrada de terra que leva à Domingos Martins, passando por mais uma santa, desta vez a Santa Maria do Jetibá. Estrada muito boa, subidas e descidas em curvas sinuosas, com um número bastante significativo de mulheres tocando motos. Toda essa região de colonização pomerana é muito bonita, porém a timidez da população local chamou-me atenção. Tentei puxar uma prosa de tudo quanto foi jeito, mas os olhares desconfiados se escondiam por trás de portas e janelas. Por sorte minha, como toda regra tem exceção, encontrei um nativo de língua solta que me deu explicações detalhadas sobre a economia agrícola local e sobre várias curiosidades de um lugar tão cheio de histórias.

Cruzei Domingos Martins e segui pela 262 até o trevo para Alfredo Chaves, onde seria minha segunda pernoite na terra dos Voadores do Espírito Santo. Para variar, encerrei o dia com mais uma chuva ameaçadora, daquelas que escorre da nuca até...

Um hotel bom e barato me deu conforto suficiente para acordar bem, assistir o nascer do Sol e seguir via estrada de terra até a cidade de Iconha, onde o asfalto me esperava com um grande movimento de carros e caminhões. E foi nesse tumulto que atravessei a divisa ES/RJ, chegando à paisagem monótona e plana do norte fluminense que me acompanhou até Campos. Abasteci e segui na estrada para São Fidélis, torcendo para que a minha referência de 19 km de distância, estivesse correta. Para minha sorte, foi em cima como planilha de enduro, e cheguei numa estradinha de "asfalto" que mal dava para um carro só.

Pois foi nessa mesma estradinha que me dei conta de como é pra lá de aventureiro não usar GPS. Eu diria inclusive que é bastante ousado, já que meio sem querer, interrompi os serviços religiosos de uma pequena igrejinha para pedir informações. E com toda boa vontade do mundo a metade das pessoas que estavam lá dentro saiu para ajudar, e foi então que eu soube que teria um rio pela frente para atravessar com um pequeno detalhe: a ponte estava caída. Uns disseram que não adiantava seguir que eu não passaria, outros, mais otimistas, disseram que com aquela "motona" eu passava em qualquer lugar, e é claro que no meio de tanta opinião, a dúvida instalou-se. Mas foi por pouco tempo: lá de dentro da igrejinha saiu uma senhora, fazendo papel de anjo, que me falou o seguinte: “_ Meu filho, a estrada é essa mesma. Meu pai passava por este caminho para ir caçar e siga com fé que você vai chegar.”

Juntando o comentário da "motona" com o "vai com fé" nem titubeei. Não sou de muita reza mas a experiência me diz que não se desconfia de palavras ditas com tanta firmeza. Agradeci a generosidade de todos e segui em direção à pequena Rio Preto nesta mistura de "asfalto" e terra, sentindo conforto pelas “bênçãos” e grande admiração pela paisagem chamada de “mares de morros” que agora me acompanhava.

Devagar, média horária de menos de 50 para não perder o menor detalhe, sigo em direção a uma vila de nome Sossego (e põe sossego nisso) do Imbé, só que para alcançar a vila, literalmente, precisava atravessar o tal rio com ponte caída. Nessa hora, os anos de trilha e enduro ajudaram, mas não teve santo nem experiência que desse jeito na peleja entre o peso da XT carregada e o fundo de areia fofa do tal rio. Atolei até o eixo e comecei a duvidar da firmeza daquela senhora, mas logo paguei com a língua porque, quase divinamente, apareceu uma dupla em uma 125 zerada, que apesar de também atolada, me ajudou a sair.

Alcancei Sossego sem problemas e segui a estrada que serpenteava a base das elevações, passando por Santo Antônio do Imbé, Osório Bersot, para infelizmente, sair no asfalto em Conceição de Macabu. Subi uma serra em direção à Trajano de Morais, aproveitando para andar e fazer curvas a 100 por hora, pois eu sabia que logo logo a terra me esperava. Abasteci o poderoso “tancão” de 22 litros e tracei como objetivo a vila de Sana, distrito de Nova Friburgo.

Entrei no gosto da terra novamente e agora estava vendo de perto as consequências das fortes chuvas do início do ano. Cruzo os povoados de Tapera e Frade, ambos cercados por indescritíveis serras. Parei algumas vezes para contemplar a paisagem e me refrescar nas várias bicas à beira da estrada. A dica é molhar a roupa de cordura por fora para que no movimento da moto o vento funcione como um ar condicionado.

Serras, rios, subidas, descidas, natureza e curvas: tudo que um amante de off road sonha se apresentava ali, de forma quase mágica, e por isso mesmo, a média horária caiu ainda mais. Não por causa da estradinha de terra, mas pela poesia verde que se oferecia. Impossível ficar imune.

Finalmente o (in)sano povoado de Sana: meu objetivo final. Parada para almoço e desta vez me dei ao luxo de ser em um restaurante. Salada e um grelhado, coisa leve mas com dúvida muito pesada sobre por onde seguir. Lumiar é logo à frente... Resisto com dificuldade a tentação mas opto por descer a serra em direção a Casemiro de Abreu, para daí, seguir na famigerada 101 até Niterói.

Chego num domingão fim de tarde, e por mais incrível que pareça, encaro um engarrafamento que nem a moto andava. Fiquei parado, cozinhando no sol, mas não importava. Sou "acordado" pela buzina de um carro que tem pressa em andar mais 3 metros e ai descubro que meus pensamentos ainda não estão ali. Sobem e descem morros, se emocionam a cada curva. Ficaram pelos caminhos por onde passei

Agora, espero ansioso pela segunda parte nas serras catarinenses e gaúchas no feriado da Semana Santa. Ah! Não custa dizer, que os pensamentos ainda andam por aqueles caminhos, não chegaram totalmente. Vêm e vão devagar, baianamente devagar.

Roberto "Atobá" - 53 anos, 34 anos de motociclismo, ex trilheiro e viajante em jornadas que mesclam asfalto e terra.

Abaixo, em Galeria de Imagens, mais fotos desta viagem!

 

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